Conselhos se preparam para choques na infraestrutura digital
A dependência crescente de serviços em nuvem, inteligência artificial, redes de comunicação e plataformas digitais está fazendo com que empresas e órgãos públicos tratem a infraestrutura tecnológica como um ativo estratégico – tão importante quanto energia, logística e cadeias de fornecimento físicas.
Tensões geopolíticas, restrições à exportação de componentes, mudanças regulatórias e ataques cibernéticos expõem organizações a interrupções que podem afetar desde sistemas internos até serviços essenciais. Nesse cenário, a soberania digital deixou de ser apenas um tema técnico e passou a ocupar espaço nas agendas dos conselhos de administração.
Uma pesquisa do Capgemini Research Institute, intitulada *Digital Sovereignty: From Policy Ambition to Executive Imperative*, mostra que 93% das organizações já discutem o assunto em seus conselhos. Em 44% dos casos, a soberania digital aparece entre as prioridades máximas da liderança.
O levantamento ouviu 1.300 executivos de grandes organizações distribuídas por 11 países. O estudo também analisou 866 empresas para calcular o Índice de Soberania Digital. O resultado indica que 86% apresentam exposição significativa a riscos relacionados ao controle, à disponibilidade e à substituição de tecnologias críticas.
Segundo Nicolas Gaudilliere, executivo da Capgemini responsável pelo estudo, os riscos que antes pareciam hipotéticos se tornaram concretos. A combinação entre crises internacionais, concentração de fornecedores e dependência de plataformas digitais transformou a continuidade tecnológica em uma preocupação estratégica.
Nuvem e IA avançaram mais rápido que a governança
A migração acelerada para a nuvem e a adoção de ferramentas de inteligência artificial trouxeram ganhos de produtividade, escala e inovação. No entanto, a velocidade dessas mudanças superou, em muitos casos, a evolução dos modelos de governança, segurança e resiliência.
Muitas organizações não conhecem integralmente as relações de dependência existentes em seus ambientes digitais. Um aplicativo pode depender de diversos serviços externos, como provedores de nuvem, sistemas de identidade, APIs, plataformas de dados, componentes de código aberto e redes de distribuição. Uma falha em qualquer elo pode provocar efeitos em cadeia.
Entre os riscos associados à soberania digital estão a concentração em poucos fornecedores, a dificuldade de transferir dados e aplicações, a exposição a decisões regulatórias de outros países, a localização de informações sensíveis e a falta de alternativas para tecnologias essenciais.
Também preocupa a dependência de modelos de inteligência artificial controlados por terceiros. Empresas que utilizam sistemas proprietários precisam avaliar o que aconteceria caso o fornecedor alterasse preços, restringisse o acesso, encerrasse determinado produto ou modificasse as regras de uso dos dados.
A capacidade de trocar de fornecedor é decisiva
A soberania digital não significa necessariamente desenvolver internamente todos os sistemas ou abandonar provedores internacionais. O ponto central é manter capacidade de escolha e substituição quando uma tecnologia deixa de atender às necessidades da organização.
Charles-Pierre Astolfi, diretor de informações do Instituto Nacional de Informação Geográfica e Florestal da França, resume essa ideia no conceito de “substituibilidade”. Em outras palavras, uma empresa resiliente deve conseguir mudar de tecnologia, fornecedor ou arquitetura sem interromper suas operações essenciais.
Esse princípio exige planejamento prévio. Contratos precisam prever portabilidade de dados, formatos abertos, níveis mínimos de serviço, acesso a informações de auditoria e procedimentos para encerramento da relação comercial. Sem essas garantias, a organização pode ficar presa a um ecossistema tecnológico mesmo quando surgem problemas de segurança, custo ou disponibilidade.
Interdependência resiliente substitui a autossuficiência
A pesquisa indica que 59% das organizações consideram a soberania digital plena um objetivo pouco realista. Em vez de buscar autossuficiência absoluta, a maioria prefere adotar o conceito de “interdependência resiliente”.
Essa abordagem reconhece que empresas e governos continuarão dependentes de parceiros, fornecedores e infraestruturas globais. A diferença está em administrar essa dependência de forma consciente, protegendo ativos estratégicos, diversificando alternativas e reduzindo pontos únicos de falha.
Cerca de dois terços dos executivos definem a soberania digital justamente por essa perspectiva. O objetivo é preservar o controle sobre dados proprietários, modelos de inteligência artificial, sistemas críticos e processos indispensáveis ao funcionamento da organização.
Para Gaudilliere, a questão não é perseguir uma independência tecnológica completa, mas tomar decisões claras sobre os ativos que precisam permanecer sob controle direto. Cada empresa deve identificar quais dados, sistemas e serviços não podem ficar sujeitos a uma única empresa, país ou plataforma.
Como as empresas podem reduzir a exposição
O primeiro passo é mapear as dependências digitais. Esse inventário deve incluir fornecedores diretos e indiretos, regiões onde os dados são processados, serviços utilizados por cada aplicação e possíveis impactos de uma interrupção.
Também é importante classificar os sistemas conforme sua criticidade. Nem toda aplicação exige o mesmo nível de redundância ou controle. Plataformas ligadas a pagamentos, saúde, produção, comunicação, identidade e atendimento ao cliente normalmente merecem medidas mais rigorosas.
A diversificação é outra estratégia relevante. Utilizar mais de um provedor de nuvem, manter ambientes híbridos ou adotar arquiteturas que permitam executar aplicações em diferentes plataformas pode reduzir o risco de paralisação. Essa decisão, porém, deve considerar custos, complexidade operacional e capacidade da equipe.
Testes de recuperação precisam fazer parte da rotina. Não basta possuir cópias de segurança ou contratos de contingência; é necessário verificar se os dados podem ser restaurados, se os sistemas podem ser transferidos e quanto tempo a operação levaria para voltar ao funcionamento normal.
Conselhos precisam acompanhar indicadores de resiliência
A responsabilidade pela soberania digital não deve ficar restrita ao departamento de tecnologia. Conselhos e executivos precisam acompanhar indicadores capazes de mostrar o grau de exposição da organização.
Entre as métricas úteis estão o percentual de sistemas dependentes de um único fornecedor, o tempo estimado para migrar dados, a quantidade de aplicações sem plano de contingência e a concentração geográfica dos serviços críticos.
A liderança também deve avaliar riscos relacionados a contratos, legislação, propriedade intelectual e proteção de dados. Uma solução tecnicamente segura pode apresentar riscos jurídicos ou estratégicos quando os dados estão submetidos a regras de outra jurisdição.
O tema tende a ganhar ainda mais importância com a expansão da inteligência artificial. Modelos de IA dependem de grandes volumes de dados, capacidade computacional e serviços especializados. A falta de alternativas pode gerar custos elevados e limitar a autonomia da empresa em momentos de crise.
Resiliência operacional é o principal motivador
A pesquisa aponta que a continuidade das operações diante de instabilidades geopolíticas e interrupções é o principal motivo para investir em soberania digital. Esse fator foi mencionado por 80% dos entrevistados.
A preocupação não se limita a ataques hackers. Falhas em data centers, apagões, sanções econômicas, conflitos internacionais, problemas de conectividade e alterações repentinas em contratos também podem comprometer serviços digitais.
Por isso, a soberania digital deve ser tratada como parte da estratégia de continuidade de negócios. Organizações preparadas não dependem apenas de barreiras de segurança; elas combinam redundância, visibilidade, contratos equilibrados, processos de recuperação e capacidade de tomar decisões rapidamente.
O cenário descrito pela Capgemini mostra que a infraestrutura digital deixou de ser apenas uma questão operacional. Ela passou a representar um componente essencial da competitividade, da segurança e da continuidade institucional. Para os conselhos, o desafio será equilibrar inovação e dependência tecnológica sem abrir mão da capacidade de reação diante de choques inesperados.
