PIVOT reúne grandes fornecedores e propõe novo modelo de testes independentes de cibersegurança
O programa britânico PIVOT, criado pela SE Labs, pretende mudar a forma como soluções de segurança cibernética são avaliadas. Em vez de analisar apenas técnicas isoladas ou respostas pontuais, a iniciativa acompanha cadeias completas de ataque, desde o reconhecimento inicial até uma possível exfiltração de dados.
A primeira rodada pública do programa foi anunciada em 15 de setembro e conta com a participação de Broadcom, CrowdStrike, Fortinet, Palo Alto Networks e Sophos. A previsão é que os resultados sejam divulgados no início de 2027.
PIVOT é a sigla para *Precise Insight and Visibility Of Tactics*. O nome resume a proposta central do projeto: oferecer uma visão mais precisa sobre as táticas utilizadas pelos invasores e sobre a visibilidade que as ferramentas de defesa proporcionam às equipes responsáveis pelo monitoramento.
O que será analisado nos testes
A metodologia deverá reproduzir cenários próximos daqueles encontrados em ambientes corporativos reais. Os avaliadores pretendem observar diferentes fases de uma operação maliciosa, como reconhecimento, acesso inicial, elevação de privilégios, persistência, movimentação lateral, coleta de informações, roubo de dados e comprometimento de sistemas.
Mais do que registrar se uma ameaça foi bloqueada, o PIVOT busca identificar em qual etapa isso aconteceu e quais consequências surgiram caso a proteção não tenha sido suficiente. A análise também considera até onde o invasor conseguiu avançar dentro do ambiente.
Outro componente importante é a experiência operacional do centro de operações de segurança, o SOC. Os testes devem avaliar a qualidade dos alertas, o volume de informações úteis, o contexto fornecido para a investigação e a capacidade de reconstruir a sequência dos acontecimentos.
Essa abordagem pode revelar diferenças relevantes entre produtos que, em uma avaliação superficial, parecem apresentar resultados semelhantes. Uma solução pode interromper uma atividade maliciosa rapidamente, enquanto outra pode permitir algum avanço, mas fornecer evidências mais completas para a equipe de resposta. Para o comprador, essas distinções são decisivas.
Configurações próximas da realidade
A SE Labs indica que os produtos serão testados com configurações representativas de implantações reais. A intenção é evitar que os resultados dependam de ajustes extraordinários feitos exclusivamente para a avaliação.
Os fornecedores também não deverão conhecer antecipadamente a identidade dos grupos ou as cadeias de ataque utilizadas. Durante o processo, não serão permitidas alterações específicas destinadas a melhorar artificialmente o desempenho, embora as atualizações normalmente disponíveis aos clientes possam ser aplicadas.
Com isso, o programa tenta reduzir a distância entre o desempenho demonstrado em laboratório e a proteção observada no cotidiano das empresas. Ainda assim, os resultados não substituem testes próprios, pois cada organização possui arquitetura, políticas, integrações e níveis de maturidade diferentes.
PIVOT não substitui o MITRE ATT&CK Evaluations
A chegada do PIVOT não significa necessariamente que os fornecedores estejam abandonando as avaliações da MITRE. Os dois programas possuem objetivos distintos e podem ser utilizados de maneira complementar.
O MITRE ATT&CK Evaluations continua baseado na análise de táticas, técnicas e procedimentos associados a grupos adversários. A edição Enterprise 2026 está em andamento e deve divulgar seus resultados em dezembro, com foco em ameaças financeiramente motivadas e em operações de espionagem relacionadas à China, dentro de um cenário corporativo Windows.
Já o PIVOT concentra-se na progressão da intrusão e no resultado defensivo obtido ao longo de toda a cadeia. A iniciativa também dá maior destaque à utilidade dos alertas e à capacidade do SOC de investigar e responder ao incidente.
Nenhum dos dois programas deve ser interpretado como um ranking simples ou definitivo de produtos. Um desempenho forte em determinado cenário não garante automaticamente o mesmo resultado em uma rede com outras tecnologias, regras, integrações e perfis de risco.
Não se trata de uma vulnerabilidade
O anúncio do PIVOT descreve um programa independente de avaliação, e não uma falha de segurança. Não há indicação de CVE, malware específico ou campanha de exploração associada à iniciativa.
Por esse motivo, não existe patch emergencial ou mitigação obrigatória a ser aplicada pelos clientes em razão do lançamento. A orientação publicada pela SE Labs diz respeito à metodologia dos testes, incluindo a reprodução de ataques completos, o uso de configurações realistas e a avaliação conjunta de prevenção, detecção e investigação.
A organização também informou que analistas da Gartner e da Forrester terão acesso aos dados antes da divulgação pública. A participação desses especialistas deverá contribuir para uma interpretação mais independente dos resultados.
Por que o PIVOT interessa aos CISOs
Para diretores de segurança da informação, os resultados podem ajudar a responder perguntas mais próximas da operação diária. Entre elas estão:
– Em que fase o ataque foi bloqueado?
– O produto identificou a atividade ou apenas reagiu depois do comprometimento?
– Os alertas chegaram com prioridade e contexto suficientes?
– A equipe conseguiu compreender rapidamente o caminho percorrido pelo invasor?
– Houve redução efetiva do risco de escalada de privilégios e movimentação lateral?
– A solução ajudou a impedir a exfiltração ou apenas registrou o evento?
Esse tipo de informação é mais útil para decisões de compra do que uma taxa isolada de detecção. A eficiência de uma plataforma depende não apenas de reconhecer uma ameaça, mas também de permitir que analistas ajam rapidamente e com segurança.
Impacto na escolha de ferramentas
Os resultados do PIVOT podem ser incorporados a processos de seleção, renovação e consolidação de ferramentas. Empresas que utilizam várias soluções poderão comparar não apenas a capacidade de bloqueio, mas também a integração entre endpoint, rede, identidade, nuvem e sistemas de gerenciamento de eventos.
A análise deve considerar ainda o custo operacional. Um produto que gera muitos alertas sem contexto pode aumentar a sobrecarga do SOC, enquanto uma plataforma com maior capacidade de correlação pode reduzir o tempo necessário para investigar incidentes.
Outro indicador relevante é o tempo de resposta. Mesmo quando a prevenção falha, a detecção precoce pode limitar danos, impedir a expansão do ataque e acelerar a recuperação. Por isso, a visibilidade oferecida durante toda a intrusão pode ter tanto valor quanto o bloqueio inicial.
Cuidados ao interpretar os resultados
CISOs e compradores devem evitar decisões baseadas exclusivamente na posição de um fornecedor em uma avaliação. É necessário verificar quais sistemas foram testados, quais técnicas foram utilizadas e quais recursos estavam habilitados.
Também é importante observar se o cenário representa o ambiente da empresa. Uma organização fortemente dependente de serviços em nuvem, por exemplo, pode atribuir mais peso a controles de identidade e proteção de aplicações do que uma companhia concentrada em estações Windows locais.
A realização de uma prova de conceito continua essencial. O teste interno deve medir integração com ferramentas existentes, impacto sobre desempenho, qualidade dos fluxos de investigação, facilidade de administração e capacidade de atender aos requisitos regulatórios.
Uma possível evolução das avaliações independentes
O PIVOT surge em um momento de transformação no mercado de testes de segurança. As organizações querem informações mais práticas, capazes de demonstrar como uma solução se comporta diante de uma operação de ataque completa, e não apenas diante de técnicas apresentadas de forma isolada.
Se os resultados forem consistentes e transparentes, o programa poderá contribuir para aproximar avaliações laboratoriais da realidade dos SOCs. A principal promessa está em transformar métricas técnicas em evidências operacionais: onde a defesa funcionou, onde falhou e quanto tempo a organização ganhou para reagir.
A iniciativa não elimina a importância de outros modelos de avaliação. Seu maior potencial está justamente na combinação de perspectivas diferentes. Enquanto programas baseados em técnicas ajudam a compreender a cobertura defensiva, o PIVOT pode mostrar como essa cobertura se comporta ao longo de uma intrusão completa.
Para os compradores, a conclusão é clara: nenhum teste isolado deve definir uma contratação. A melhor decisão surge da combinação entre avaliações independentes, prova de conceito própria, análise de custos, maturidade da equipe e aderência ao perfil de risco da organização.
