O dado merece respeito: por que o Data Security Posture Management será decisivo para o Brasil em 2026
A economia brasileira em 2026 funciona, na prática, como uma gigantesca engrenagem movida a dados. Transações financeiras, logística, varejo digital, saúde, agricultura, serviços públicos e até a criação de produtos com uso de IA generativa dependem de informação circulando em alta velocidade. Esse “novo petróleo”, porém, ainda é explorado de forma desorganizada por muitas empresas, o que mina a capacidade do país de crescer com segurança e previsibilidade.
Dados corporativos fluem o tempo todo entre múltiplas nuvens, aplicações SaaS, dispositivos utilizados por colaboradores, APIs e modelos de IA. Administradores com privilégios ampliados criam ambientes paralelos, times de desenvolvimento geram cópias de bases para teste, backups são produzidos fora das políticas oficiais e unidades de negócio mantém planilhas e bancos “caseiros” com informações sensíveis. O resultado é uma proliferação de repositórios que ninguém consegue enxergar por completo.
Esse cenário cria pontos cegos que os modelos tradicionais de segurança de dados não foram desenhados para cobrir. Em vez de proteger o dado onde quer que ele esteja, muitas estratégias ainda se concentram apenas em perímetro, infraestrutura ou aplicações críticas previamente mapeadas. As equipes de segurança acabam olhando para o que lhes foi formalmente apontado, enquanto informações altamente sensíveis são processadas e copiadas em ambientes pouco visíveis ou totalmente desconhecidos.
Ferramentas baseadas apenas em varreduras estáticas, análises esporádicas ou dashboards que mostram “fotos” do ambiente em determinado momento não acompanham a forma real como os dados são criados, replicados, transformados e compartilhados hoje. O ciclo de vida da informação é dinâmico: um conjunto de dados pode ser extraído de um sistema core pela manhã, exportado em planilhas à tarde, enviado a um fornecedor à noite e usado para treinar um modelo de IA no dia seguinte — muitas vezes sem que a área de segurança tenha qualquer visibilidade desse fluxo.
Estudos recentes reforçam a gravidade desse quadro. Levantamento da Cloud Security Alliance, realizado em março de 2025, apontou que 35% das violações de dados em 2024 envolveram informações “ocultas”, armazenadas ou processadas em repositórios que não constavam no inventário oficial de TI. Ou seja: mais de um terço dos incidentes atingiu exatamente aquilo que ninguém sabia que existia ou que não era tratado como risco prioritário.
O mesmo estudo revelou um desalinhamento preocupante entre a percepção dos executivos e a realidade operacional. Cerca de 80% dos líderes entrevistados admitiram não confiar na própria capacidade de identificar, com precisão, as fontes de dados de alto risco dentro da organização. Além disso, 48% disseram não contar com uma equipe suficientemente preparada para enfrentar essa batalha, seja por falta de especialistas, seja por ausência de processos maduros e ferramentas adequadas.
É nesse contexto que ganha relevância a disciplina de Data Security Posture Management (DSPM – Gerenciamento de Postura de Segurança de Dados). Conceito cunhado e consolidado por análises de mercado especializadas, o DSPM propõe mudar o foco: em vez de proteger apenas sistemas ou redes, o centro da estratégia passa a ser o dado em si — onde quer que ele esteja, qualquer que seja a infraestrutura, nuvem ou aplicação que o hospede.
Estudo publicado em 2025 indica que mais de 20% das empresas globais colocarão projetos de DSPM entre as prioridades para 2026. A corrida tem um motivo claro: o volume de dados gerados no mundo atingiu a marca de 181 zettabytes em 2025, e a curva continua ascendente com a popularização da IA generativa, dispositivos conectados e novos modelos de negócios digitais. Ignorar a postura de segurança nesse contexto equivale a operar um grande porto sem controle sobre cargas, rotas e responsáveis.
O DSPM permite responder a perguntas fundamentais que muitos CIOs e CISOs, hoje, não conseguem endereçar de forma completa:
– Onde, exatamente, estão os dados confidenciais da organização?
– Quem tem acesso a essas informações e em que nível de privilégio?
– De que forma esses dados vêm sendo utilizados, copiados e compartilhados?
– Qual é a postura de segurança de cada repositório, aplicação ou fluxo que toca esses dados?
Soluções baseadas em DSPM ampliam a visibilidade ao rastrear dados sensíveis como PII (informações pessoalmente identificáveis) e PHI (dados de saúde), identificando “Shadow Data” — conjuntos armazenados fora do radar oficial — e detectando padrões de risco e potenciais ameaças internas em tempo quase real. Essa abordagem é especialmente estratégica em um momento em que modelos de IA generativa consomem grandes volumes de informação, muitas vezes combinando bases internas e externas de forma automatizada.
Do ponto de vista prático, plataformas de DSPM são adotadas para executar uma vigilância contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana, sobre o estado da segurança dos dados. Elas identificam, classificam e priorizam riscos e vulnerabilidades, permitindo que a empresa aja de forma proativa, e não apenas reativa, diante de incidentes. Em vez de descobrir um vazamento após sua ocorrência, a organização passa a ter alertas sobre configurações incorretas, acessos excessivos ou movimentações atípicas antes que o problema se torne uma crise.
Um diferencial importante do DSPM é a capacidade de se integrar a outros pilares da segurança corporativa. É possível estabelecer conexões com soluções de gerenciamento de identidade e acesso (IAM), plataformas de monitoramento e correlação de eventos (SIEM) e ferramentas de automação de resposta a incidentes (SOAR). Dessa forma, dados de risco identificados pelo DSPM podem gerar, automaticamente, ajustes de permissão, abertura de tickets, orquestração de bloqueios e notificações para as áreas responsáveis.
Essa integração é vital para reduzir a exposição causada por terceiros e por usuários com permissões superdimensionadas, um dos pontos mais explorados por atacantes atualmente. Em cadeias de suprimentos complexas, onde fornecedores, parceiros e prestadores de serviço acessam sistemas e dados críticos, o DSPM oferece um controle granular sobre quem pode ver o quê, por quanto tempo e em quais condições, diminuindo a superfície de ataque da organização.
Outro benefício direto está na área de conformidade regulatória. Em um país que convive com a LGPD e com setores regulados por normas específicas, e em um cenário em que legislações internacionais como HIPAA e outras regras de proteção de dados influenciam práticas internas, a capacidade de demonstrar controle efetivo sobre o ciclo de vida da informação se torna um diferencial competitivo. Plataformas DSPM facilitam a geração de relatórios, trilhas de auditoria e evidências de que os dados são tratados conforme as políticas e obrigações legais.
Importante destacar que o DSPM não se limita a apontar problemas: muitas soluções já permitem implementar controles de segurança diretamente a partir da própria plataforma, como ajustes automáticos de criptografia, segmentação de acesso e ativação de políticas específicas para determinados conjuntos de dados. A atuação é contínua, adaptando a postura de segurança conforme o ambiente evolui, o que é crucial em arquiteturas multicloud e na adoção acelerada de IA, onde novos fluxos de dados surgem praticamente todos os dias.
Nada disso, porém, se concretiza sem inteligência estratégica e capacidade de execução por parte das empresas usuárias. Implementar plataformas de DSPM não é apenas instalar uma nova ferramenta: exige revisão de processos, redefinição de papéis e responsabilidades, alinhamento entre áreas de negócio, TI, segurança e jurídico, além de uma mudança cultural na forma de enxergar o valor e o risco associado aos dados.
Pesquisas de consultorias especializadas apontam que muitos projetos de proteção de dados fracassam não por limitações tecnológicas, mas por falta de governança e de patrocínio executivo. Em várias organizações, ainda prevalece a visão de que segurança é um “custo inevitável”, e não um habilitador de negócios. Nesses casos, o DSPM corre o risco de se transformar em mais um painel complexo, pouco compreendido fora da área técnica, sem impacto real na tomada de decisão.
Para que o gerenciamento de postura de segurança de dados cumpra seu papel na economia brasileira de 2026, alguns passos são críticos:
1. Mapeamento de dados orientado ao negócio
Antes mesmo de escolher uma solução de DSPM, a empresa precisa entender quais dados são vitais para sua operação, receita e reputação. Isso envolve classificar informações por criticidade, sensibilidade e valor estratégico, conectando o tema à continuidade do negócio e não apenas ao compliance.
2. Definição de políticas claras e aplicáveis
Políticas de proteção de dados devem ser objetivas, compreensíveis e traduzidas em controles técnicos concretos. O DSPM então passa a monitorar se essas políticas estão sendo cumpridas e a apontar desvios de forma mensurável.
3. Integração com o ecossistema de segurança existente
Em vez de operar de forma isolada, o DSPM precisa conversar com IAM, SIEM, SOAR, ferramentas de classificação e DLP, soluções de nuvem e plataformas de dados. Somente assim é possível construir uma visão realmente unificada do risco.
4. Capacitação contínua das equipes
Times de segurança, privacidade, dados e desenvolvimento devem ser treinados para interpretar os insights da plataforma e transformá-los em ações. Sem esse capital humano, a melhor tecnologia terá impacto limitado.
5. Cultura de responsabilidade compartilhada
Proteger dados não é apenas função da área de segurança. Usuários de negócio, desenvolvedores, gestores de fornecedores e equipes de produto precisam assumir responsabilidades específicas, compreendendo que qualquer decisão sobre dados carrega implicações de risco.
No contexto brasileiro, a adoção madura de DSPM tende a ter efeitos além da segurança imediata. Empresas capazes de demonstrar domínio sobre seus dados aumentam a confiança de investidores, parceiros internacionais e órgãos reguladores, o que facilita a expansão para novos mercados, a celebração de contratos complexos e a participação em ecossistemas digitais globais.
Além disso, quanto mais estruturado for o gerenciamento de postura de segurança de dados, maior a liberdade para inovar com IA generativa e analytics avançado. Organizações que sabem exatamente quais dados podem ser usados, em que condições e sob quais controles conseguem experimentar novos modelos e produtos digitais com menos medo de sanções legais ou danos reputacionais.
Outro ponto relevante é o impacto econômico direto da redução de incidentes. Vazamentos de dados geram custos com resposta a crises, investigações, compensações, perda de contratos e queda na confiança do mercado. Ao diminuir a probabilidade e o impacto dessas ocorrências, o DSPM contribui, de forma concreta, para a saúde financeira das empresas e, por consequência, para a estabilidade da própria economia.
Por fim, à medida que o Brasil consolida sua posição em setores intensivos em dados — como agronegócio digital, fintechs, healthtechs, govtechs e indústrias que adotam modelos de indústria 4.0 —, o respeito ao dado deixa de ser apenas um requisito de conformidade e se torna um fator de competitividade global. As organizações que tratarem o DSPM como peça central de sua estratégia de segurança e de negócios estarão melhor posicionadas para crescer nesse novo cenário, ampliando sua participação no PIB e elevando o patamar de maturidade digital do país.
Em 2026, a diferença entre empresas que prosperam e as que lutam para sobreviver estará, em grande medida, na forma como tratam seus dados. O Data Security Posture Management surge, então, não apenas como mais uma categoria de ferramenta, mas como uma disciplina essencial para transformar volumes caóticos de informação em um ativo confiável, protegido e capaz de sustentar o próximo ciclo de crescimento da economia brasileira.
