Golpe do “link de viagem”: como criminosos aproveitam os feriadões para roubar dados e dinheiro
À medida que se aproximam feriados prolongados, como a Semana Santa e outras datas em que o turismo dispara, um velho problema ganha uma roupagem mais sofisticada: o golpe do “link de viagem”. Essa fraude digital explora a pressa para garantir promoções e a expectativa por descanso, usando links maliciosos disfarçados de ofertas imperdíveis de passagens, hospedagens e pacotes completos.
De acordo com dados da Branddi, empresa especializada na proteção de marcas no ambiente digital, apenas entre dezembro de 2025 e fevereiro de 2026 foram registradas 59.593 ocorrências de uso indevido de marcas do setor de turismo. Esse volume mostra como agências, companhias aéreas, hotéis e plataformas de reserva têm sido sistematicamente clonados ou imitados para enganar consumidores.
A mecânica do golpe é simples, mas extremamente eficaz. Criminosos criam anúncios, mensagens ou páginas que oferecem viagens com preços muito abaixo do mercado, geralmente destacando urgência: “últimas vagas”, “somente hoje”, “promoção exclusiva de feriado”. Ao clicar no link, a vítima é direcionada para um site falso que imita, com alto nível de fidelidade, o layout de uma marca conhecida. Ali, é induzida a informar dados pessoais, dados de cartão de crédito, realizar um pagamento via Pix ou ainda baixar arquivos infectados com softwares maliciosos.
Especialistas da Sinch, empresa global de comunicação em nuvem, apontam que o que torna essa nova onda de golpes ainda mais perigosa é a combinação de escala e velocidade. O Brasil, além de ser um dos mercados digitais mais avançados, também está entre os mais visados por fraudadores. Golpes tradicionais foram adaptados para o ambiente online, ganhando fôlego com o uso intensivo de links e de canais digitais que permitem alcançar milhares de pessoas em minutos.
Segundo Mario Marchetti, diretor-geral da Sinch na América Latina, o link passou a ser o centro de gravidade da fraude digital. Ele reúne, em um único ponto, a engenharia social (a manipulação psicológica da vítima), a tecnologia (páginas falsas, redirecionamentos, malwares) e a execução do golpe (captura de dados e roubos financeiros). Muitas vezes, um único clique basta para comprometer informações sensíveis ou abrir caminho para invasões futuras.
No contexto brasileiro, esses golpes circulam, sobretudo, por WhatsApp, SMS e redes sociais. As mensagens raramente são genéricas: vêm com linguagem natural, aparência de comunicação oficial e, em alguns casos, até com o nome da vítima ou referências a seu comportamento de consumo. O objetivo é criar um senso de urgência – “compre agora”, “responda em até 10 minutos”, “resgate seu crédito de viagem” – e reduzir o tempo de reflexão antes do clique.
A evolução dos canais de comunicação digital só aumenta essa superfície de ataque. Hoje, as mensagens podem vir acompanhadas de imagens de alta qualidade, vídeos promocionais, botões de ação e até opções de pagamento integradas. Tudo isso dá uma aparência profissional e legítima à fraude. Quanto mais “rica” e interativa é a experiência, maior a chance de o usuário baixar a guarda e tratar a oferta como real.
Para quem atua em segurança da informação, cada nova funcionalidade inserida em aplicativos de mensagens e redes sociais representa, ao mesmo tempo, uma melhoria na experiência do usuário e uma oportunidade para criminosos. Por isso, especialistas defendem uma abordagem de proteção em múltiplas camadas: combinação de tecnologia de detecção, monitoramento contínuo, análise de comportamento, inteligência antifraude e, principalmente, educação constante dos usuários.
Mesmo com as inovações em soluções de segurança, o comportamento humano continua sendo o elo mais frágil – e, ao mesmo tempo, o mais decisivo. Desconfiar de qualquer oferta excessivamente vantajosa, evitar clicar em links recebidos de desconhecidos (ou mesmo de conhecidos, quando a mensagem parecer suspeita), checar a autenticidade de perfis e sites e sempre buscar canais oficiais de venda são atitudes essenciais para reduzir o risco.
Marchetti destaca que esses golpes se apoiam, sobretudo, na vulnerabilidade emocional das pessoas. A vontade de economizar, a ansiedade por viajar e o medo de “perder” uma oportunidade única são ingredientes que alimentam a engrenagem criminosa. Quando o usuário está bem informado e atento a sinais de alerta – erros de português, domínios estranhos, pedidos de dados em excesso, pressão por resposta imediata -, ele se torna capaz de interromper o ciclo da fraude antes que o prejuízo aconteça.
Sinais de alerta no golpe do “link de viagem”
Para reconhecer esse tipo de fraude, alguns indícios merecem atenção redobrada:
– Descontos muito acima da média do mercado, sem explicação plausível (por exemplo, passagem internacional por uma fração do valor usual).
– Mensagens que insistem em urgência extrema, como contagem regressiva, ameaças de expiração imediata da oferta ou alegações de “últimas unidades”.
– Endereços de sites parecidos, mas não idênticos aos das empresas reais, com pequenas variações de letras, números ou domínios estranhos.
– Solicitação de dados sensíveis desnecessários para aquela etapa da compra, como fotos de documentos, senhas ou códigos de autenticação.
– Uso exagerado de imagens copiada de campanhas antigas, sem contextualização clara com promoções atuais.
Verificar cada um desses pontos antes de concluir uma compra é fundamental, sobretudo em épocas de grande volume de campanhas promocionais, como feriados prolongados ou alta temporada de férias.
Como o turismo se tornou alvo preferencial
O setor de turismo reúne todas as condições para ser intensamente explorado por cibercriminosos: altas variações de preço, grande quantidade de promoções sazonais, decisão de compra emocional e urgência para garantir a viagem ideal. Em períodos como a Semana Santa, Réveillon e férias escolares, essa combinação se intensifica, dando ao golpe do “link de viagem” o ambiente perfeito para proliferar.
Além disso, o hábito cada vez mais comum de resolver tudo pelo celular – da pesquisa de preços ao pagamento – cria um cenário em que muitas decisões são tomadas “no impulso”, entre uma atividade e outra, sem a mesma cautela que se teria ao planejar a viagem em um computador com calma.
O que as empresas podem (e precisam) fazer
Não é apenas o consumidor que tem responsabilidade na mitigação desses riscos. Empresas do setor de turismo e do ecossistema digital em geral precisam investir em:
– Monitoramento constante do uso indevido de suas marcas em sites, anúncios e perfis falsos.
– Campanhas educativas claras, mostrando exemplos reais de golpes e orientando clientes sobre canais oficiais de contato.
– Mecanismos de autenticação reforçada para acesso a contas, reservas e histórico de compras.
– Parcerias com provedores de comunicação e tecnologia para bloquear ou sinalizar domínios maliciosos e campanhas fraudulentas.
Além disso, dar visibilidade rápida a incidentes – avisando clientes sobre páginas falsas detectadas e orientando sobre como proceder – ajuda a reduzir a eficácia desses golpes e a preservar a reputação das marcas.
Boas práticas para o consumidor antes de clicar
Quem planeja viajar e se depara com uma oferta “inacreditável” pode seguir alguns passos simples antes de interagir com qualquer link:
1. Procurar a mesma promoção diretamente no site ou aplicativo oficial da empresa, sem usar o link recebido na mensagem.
2. Pesquisar o nome da promoção ou do suposto parceiro em buscadores, verificando se há alertas de fraude ou reclamações.
3. Observar atentamente o endereço do site: pequenas diferenças em relação ao original costumam ser um forte indicativo de falsificação.
4. Evitar informar dados de cartão diretamente em páginas abertas por links de mensagens; preferir meios de pagamento integrados e reconhecidos ou o app oficial da empresa.
5. Desconfiar sempre de pedidos de pagamento adiantado via Pix ou transferência bancária para contas de pessoas físicas ou empresas desconhecidas.
Adotar essas práticas de forma consistente reduz muito a probabilidade de cair em furadas, mesmo que os criminosos aperfeiçoem constantemente suas estratégias.
O papel da educação digital contínua
A proteção contra o golpe do “link de viagem” não se resolve apenas com tecnologia sofisticada. É um processo de longo prazo, que envolve fortalecer a educação digital da população. Isso passa por ensinar, desde cedo, como funcionam as principais táticas de engenharia social, quais são os riscos de compartilhar informações em ambientes não confiáveis e por que é importante questionar propostas “boas demais para ser verdade”.
Programas de conscientização dentro de empresas, campanhas públicas e conteúdos acessíveis sobre segurança digital podem criar uma cultura de desconfiança saudável em relação a links recebidos por mensagens ou redes sociais, sobretudo em contextos financeiros.
Feriado seguro: planejamento e cautela
Planejar a viagem com antecedência, buscar referências de agências e plataformas, ler avaliações de outros usuários e definir um orçamento realista também ajudam a blindar o consumidor contra golpes. Quando a pessoa sabe quanto custa, em média, uma passagem ou um pacote para determinado destino, fica mais fácil perceber quando o desconto é simplesmente irreal.
Nos feriados prolongados, em vez de ceder à pressa, vale reforçar a prudência: se a oferta for de fato legítima, ela provavelmente estará disponível no canal oficial da empresa. Se estiver apenas em um link obscuro, recebido por mensagem repentina, a chance de fraude é alta.
No fim das contas, o golpe do “link de viagem” é a combinação de tecnologia, estratégia criminosa e exploração das emoções humanas. Reduzir seu impacto exige um tripé: empresas vigilantes, soluções tecnológicas robustas e usuários mais críticos e informados. Quando esses três elementos caminham juntos, o que hoje é uma grande ameaça em épocas de feriado passa a ser um risco controlado – e as viagens podem voltar a ser motivo apenas de descanso e boas memórias, não de prejuízos e dores de cabeça.
