Vulnerabilidade crítica no Magento permite sequestro de sessões e acesso total a lojas virtuais
Uma falha grave no sistema de autenticação do Magento, registrada como CVE-2025-54236 e apelidada de “SessionReaper”, está sendo explorada em ataques reais contra lojas virtuais no mundo todo. A vulnerabilidade já foi usada em ofensivas contra mais de 200 sites de e-commerce, permitindo que invasores assumam contas administrativas e passem a controlar completamente o ambiente, como se fossem os donos legítimos da loja.
O ponto central do problema está no tratamento inadequado dos tokens de sessão – os identificadores temporários que mantêm o usuário logado após a autenticação. Em versões vulneráveis do Magento, esses tokens não são invalidados corretamente no momento do logout. Com isso, um token que deveria estar “morto” continua ativo e pode ser reaproveitado por criminosos, o que explica o apelido “SessionReaper” (ceifador de sessões).
Quando um atacante consegue interceptar ou obter de alguma forma esse token de sessão “zumbi”, ele pode reutilizá‑lo para entrar no painel administrativo sem precisar de senha, ignorando completamente os mecanismos tradicionais de autenticação. A partir daí, passa a ter os mesmos privilégios de um administrador legítimo, o que inclui acesso a configurações críticas, dados sensíveis e ao próprio servidor.
Relatórios técnicos apontam que grupos distintos de cibercriminosos vêm explorando a falha de forma massiva. A Oasis Security identificou campanhas de varredura automatizada mirando mais de mil APIs vulneráveis de Magento, em busca de lojas ainda sem correção. A partir da identificação de um alvo exposto, o ataque segue uma cadeia relativamente previsível: sequestro de sessão, escalonamento de privilégios, instalação de ferramentas maliciosas e extração de informações.
Uma vez dentro do ambiente, os invasores normalmente buscam elevar seus privilégios até o nível root, o mais alto no servidor. Com esse tipo de acesso, conseguem implantar web shells – pequenos scripts que funcionam como portas de controle remoto ocultas – garantindo persistência mesmo após reinicializações ou mudanças superficiais de configuração. Esses web shells permitem aos atacantes executar comandos, alterar arquivos, criar usuários adicionais e preparar novos vetores de ataque.
Em paralelo, há grande foco na coleta de dados sensíveis. Isso inclui credenciais de outros sistemas integrados, chaves de API, dados de clientes, informações de pedidos e, dependendo da forma como o ambiente foi configurado, até dados de pagamento. Embora, em cenários ideais, os dados de cartão sejam tokenizados ou processados externamente, na prática muitos lojistas ainda armazenam ou tratam informações mais sensíveis do que deveriam, aumentando drasticamente o impacto de um ataque bem-sucedido.
Investigações indicam infraestruturas de comando e controle distribuídas, com servidores maliciosos localizados em países como Finlândia e Hong Kong. Esses servidores são utilizados para coordenar as campanhas, receber dados exfiltrados e enviar comandos às máquinas comprometidas. O uso de infraestrutura distribuída e frequentemente rotativa torna a derrubada dessas operações muito mais complexa para equipes de defesa.
O alerta de segurança atribuído ao CVE-2025-54236 é categórico: trata-se de uma vulnerabilidade com potencial de execução remota de código, que deve ser tratada como prioridade máxima por qualquer empresa que utilize Magento. A exposição não se limita a uma queda temporária do site ou à alteração de páginas. Em e-commerce, o impacto vai além da indisponibilidade: envolve confiança do consumidor, risco de fraudes, multas regulatórias por vazamento de dados e danos duradouros à reputação da marca.
A primeira medida obrigatória para mitigar o risco é aplicar imediatamente o patch oficial disponibilizado pela Adobe/Magento em todas as instâncias, incluindo ambientes de produção, homologação e desenvolvimento expostos à internet. Adiar a atualização significa, na prática, manter a porta aberta para invasores, num contexto em que os ataques já são conhecidos, automatizados e em larga escala.
No entanto, a simples aplicação do patch não resolve o problema para quem já foi explorado sem saber. Por isso, é crucial que CISOs, administradores de sistemas e equipes de segurança realizem uma análise profunda de logs de acesso e autenticação, buscando indícios de uso irregular de tokens de sessão, logins administrativos em horários incomuns, endereços IP atípicos e comandos suspeitos. Qualquer comportamento divergente do padrão deve ser tratado como possível indicador de comprometimento.
Além da auditoria de logs, recomenda-se fortemente a execução de varreduras específicas no servidor em busca de web shells, backdoors, scripts desconhecidos em diretórios de aplicação e modificações não autorizadas em arquivos de configuração. Mesmo após corrigir a vulnerabilidade, artefatos de persistência podem permanecer ativos e permitir que o atacante continue explorando o ambiente, agora por outros caminhos.
Para reduzir a superfície de ataque, as empresas devem revisar políticas de sessão e autenticação no Magento: encurtar o tempo de expiração de sessão, forçar logout após períodos de inatividade, invalidar tokens sempre que houver mudança de senha ou alteração crítica de conta, e reforçar o uso de autenticação multifator para todos os perfis administrativos. Embora a MFA não resolva a falha específica de reuso de token já roubado, ela reduz riscos em outros vetores de acesso indevido.
Outro ponto sensível é a forma como muitas organizações entendem o uso de soluções em nuvem ou SaaS no contexto de segurança e backup. O fato de o Magento estar hospedado em uma infraestrutura de nuvem não significa que exista backup garantido dos dados de forma consistente, nem que haja proteção automática contra invasões. Backup é responsabilidade compartilhada, e o lojista precisa garantir rotinas próprias de cópia de segurança, testes de restauração e segregação de cópias offline ou imutáveis, que não possam ser facilmente corrompidas por um invasor com acesso administrativo.
Do ponto de vista de continuidade de negócios, um ataque explorando o SessionReaper pode resultar em indisponibilidade prolongada da loja virtual, perda de dados de pedidos, necessidade de reconstrução do ambiente e comunicação obrigatória a clientes e autoridades de proteção de dados. Por isso, planos de resposta a incidentes devem contemplar cenários específicos envolvendo comprometimento de plataforma de e-commerce, com papéis definidos, fluxos de decisão e canais de comunicação pré-estabelecidos.
Para empresas que dependem fortemente do e-commerce em sua receita, faz sentido investir em monitoramento contínuo de segurança: soluções de detecção e resposta em endpoints e servidores, WAFs bem configurados, monitoramento de integridade de arquivos, alertas de comportamento anômalo e revisões periódicas de configuração do Magento. A combinação de prevenção, detecção precoce e resposta rápida é o que efetivamente reduz o tempo de exposição e o tamanho do dano.
Também é recomendável revisar o modelo de integração com outros sistemas, como ERPs, gateways de pagamento, sistemas de CRM e plataformas de marketing. Credenciais de integração armazenadas no Magento podem abrir portas adicionais para movimentos laterais dentro do ambiente corporativo, caso sejam capturadas. Segregar acessos, aplicar o princípio de menor privilégio e rotacionar segredos após um possível incidente são passos essenciais.
Do ponto de vista de governança, o episódio do SessionReaper reforça a importância de manter inventário atualizado de aplicações críticas, incluindo versões, plugins, módulos adicionais e dependências. Ambientes legados, atualizações atrasadas e extensões de terceiros desatualizadas formam uma combinação perigosa em plataformas de e-commerce. Processos formais de gestão de patches, com janelas de manutenção regulares e testes mínimos em ambiente de homologação, precisam deixar de ser exceção e se tornar prática padrão.
Por fim, a vulnerabilidade CVE-2025-54236 é um lembrete contundente de que segurança em e-commerce não é apenas um tema técnico, mas estratégico. Quem administra lojas em Magento deve encarar essa falha não como um episódio isolado, e sim como gatilho para uma revisão mais ampla da postura de segurança: atualização de plataforma, endurecimento de configurações, reforço de backup, capacitação das equipes e criação de processos claros para detectar e responder a incidentes. Em um cenário de ataques cada vez mais direcionados ao varejo digital, ignorar um alerta como o do “SessionReaper” é correr um risco desnecessário com impacto direto em receita, marca e confiança do cliente.
