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Contas pessoais de Ia nas empresas ampliam riscos de segurança e dados

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Contas pessoais já respondem por quase metade do uso de IA nas empresas e ampliam riscos de segurança

Quase metade das interações com ferramentas de Inteligência Artificial em ambientes corporativos acontece longe do olhar das equipes de segurança. É o que revela o Enterprise AI Usage Risk Report 2026, divulgado pela Akamai em 5 de agosto. Segundo o estudo, 47,11% das conversas com soluções de IA em empresas são realizadas por meio de contas e identidades pessoais, totalmente fora do perímetro de controle de segurança, compliance e auditoria.

Esse cenário indica que uma parcela significativa do uso de IA nas organizações ocorre em uma espécie de “zona cinzenta” tecnológica: funcionários utilizam serviços de IA com seus próprios e-mails, logins e assinaturas, sem o conhecimento ou a aprovação formal da empresa. Na prática, isso significa perda de rastreabilidade, dificuldade de investigação em incidentes e maior exposição de dados sensíveis a ambientes externos.

O relatório também acende um alerta específico sobre o uso de e-mails corporativos atrelados a planos pessoais de IA. A Akamai identificou que 14,4% das conversas realizadas com credenciais corporativas estão vinculadas a assinaturas pessoais dos colaboradores. Em muitos casos, esses planos usam os dados submetidos pelos usuários para treinar modelos públicos. Isso amplia o risco de vazamento involuntário de segredos de negócio, códigos proprietários, informações de clientes e documentos internos estratégicos.

Outro ponto central do estudo é a forte concentração de risco em um grupo reduzido de usuários. Embora aproximadamente 20% dos funcionários utilizem IA ao menos uma vez por semana, o relatório mostra que os 5% mais ativos – os chamados “superusuários de IA” – são responsáveis por um volume desproporcional de interações. Enquanto a média é de 36 conversas por usuário, esses superusuários chegam a gerar pelo menos 144 conversas cada um.

Esse comportamento massivo não é o único problema. De acordo com a Akamai, esses superusuários tendem a empregar a IA em tarefas mais críticas, como decisões operacionais, análise de dados estratégicos, automação de fluxos de trabalho e manipulação de arquivos importantes. Isso aumenta significativamente a superfície de ataque: quanto mais dados confidenciais transitam por ferramentas de IA, maior a probabilidade de exposição, abuso ou comprometimento por terceiros maliciosos.

O relatório detalha ainda três novas metodologias de ataque observadas em 2026, que conseguem contornar defesas tradicionais e explorar justamente o uso intenso de assistentes de IA:

1. Vibe hacking – Técnica que manipula arquivos de instrução ou configurações de assistentes de codificação e ferramentas de IA para desenvolvedores. Ao alterar o “tom” ou o contexto em que o modelo opera, criminosos conseguem induzir a geração de código inseguro, a desativação silenciosa de checagens de segurança ou a inclusão de backdoors de forma aparentemente legítima.

2. CursorJacking – Ataques realizados por meio de extensões maliciosas instaladas em navegadores ou IDEs que interagem com assistentes de IA. Essas extensões podem roubar chaves de API, tokens de autenticação e outros segredos usados para acessar serviços de IA corporativos, abrindo caminho para uso indevido, fraude e exfiltração de dados.

3. CometJacking – Forma de injeção indireta de prompt que explora o contexto em que agentes de IA operam nos navegadores. O atacante insere instruções maliciosas em páginas, elementos invisíveis ou conteúdos carregados dinamicamente, influenciando o comportamento dos agentes de IA sem que o usuário perceba. Assim, o agente pode ser induzido a compartilhar informações sigilosas, tomar decisões equivocadas ou alterar dados de forma maliciosa.

Os riscos não se limitam à forma de uso da IA, mas também ao ecossistema de extensões e agentes que orbitam essas ferramentas. O estudo da Akamai aponta que 16,31% das extensões de IA para navegadores contêm vulnerabilidades conhecidas (CVE), um índice consideravelmente superior ao das extensões comuns, que é de 10,8%. Em outras palavras, plugins e add-ons criados para “turboalimentar” a produtividade com IA frequentemente carregam falhas já catalogadas, exploráveis por atacantes.

O nível de permissões solicitado por essas extensões também é preocupante. Quase 41,91% das extensões de IA pedem acesso a scripts do navegador, contra apenas 15,4% das extensões padrão. Esse tipo de permissão permite visualizar, modificar ou injetar conteúdo em páginas visitadas pelos usuários, o que amplia a possibilidade de espionagem, roubo de credenciais, manipulação de dados e, claro, ataques de injeção de prompt como o CometJacking.

Paralelamente, o relatório chama atenção para a proliferação de agentes de IA autônomos – softwares que tomam decisões e executam ações quase sem intervenção humana, baseados em objetivos definidos previamente. Esses agentes, quando configurados sem guardrails robustos, podem se conectar a sistemas internos, serviços de terceiros e repositórios de dados corporativos com alto nível de privilégio. Se manipulados, podem realizar ações destrutivas, enviar informações para fora da empresa ou iniciar fluxos de trabalho inteiros sem o devido controle.

Diante desse cenário, a Akamai recomenda que CISOs e líderes de segurança priorizem cinco frentes estratégicas:

Mapear e acompanhar de perto os superusuários de IA
Identificar quem são os colaboradores que mais utilizam ferramentas de IA, quais serviços usam, que tipo de dado compartilham e em quais processos de negócio a IA está sendo integrada. Em muitos casos, é necessário oferecer treinamento específico, políticas claras e até ambientes de IA corporativos mais seguros para canalizar esse uso avançado.

Eliminar a “shadow AI” com descoberta contínua de aplicações
Assim como a shadow IT expôs empresas a anos de uso não autorizado de aplicativos, a shadow AI surge quando funcionários adotam ferramentas de IA por conta própria. É fundamental implementar mecanismos de monitoramento de tráfego, inventário de aplicações e inspeção de domínios, para identificar quais serviços de IA estão sendo acessados, de onde e por quem.

Inspecionar em tempo real a camada de interação com IA
Não basta apenas bloquear ou liberar o acesso a ferramentas de IA. O relatório sugere a necessidade de inspecionar prompts, respostas e arquivos trocados em tempo real, buscando anomalias, dados sensíveis, violações de política e sinais de injeção de prompt. Controles granulares, como mascaramento de dados e restrições por tipo de informação, tornam-se cada vez mais relevantes.

Tratar extensões de navegador como software privilegiado
Em vez de enxergar extensões como algo “inofensivo”, a recomendação é encará-las como aplicações críticas. Isso significa adotar listas aprovadas, revisar permissões solicitadas, avaliar vulnerabilidades conhecidas, monitorar comportamento em produção e restringir a instalação de extensões de IA que exigem acesso amplo aos dados de navegação ou scripts.

Definir limites de privilégio mínimo para agentes autônomos
Agentes de IA devem seguir rigorosamente o princípio de privilégio mínimo: acesso apenas ao que é essencial para executar sua função. Isso inclui limitar integrações com sistemas internos, restringir comandos administrativos, aplicar logs detalhados de todas as ações e considerar sandboxes e ambientes segregados para testes antes da adoção em escala.

Para Or Eshed, vice-presidente da Akamai, a forma de encarar a IA dentro das organizações precisa mudar. Ele resume o novo contexto afirmando que a inteligência artificial “não é mais apenas um impulsionador de produtividade, é um colega colaborador com acesso direto às joias da coroa corporativas”. Em outras palavras, a IA já faz parte do coração das operações, e tratá-la como uma simples ferramenta de apoio é subestimar o risco envolvido.

Esse reposicionamento tem implicações diretas para a gestão de risco corporativo. Se a IA é um “colega” com acesso a informações sensíveis, ela também precisa estar sujeita às mesmas regras que qualquer outro usuário privilegiado. Isso significa aplicar conceitos de identidade digital, autenticação forte, autorização baseada em contexto, registros de auditoria e revisão periódica de privilégios – só que agora estendidos a modelos, agentes e integrações de IA.

Um aspecto frequentemente negligenciado é a governança de dados usados em prompts e uploads. Empresas que ainda não estabeleceram diretrizes claras sobre quais informações podem ou não ser inseridas em ferramentas de IA tendem a depender apenas do bom senso dos usuários. O relatório mostra que isso é insuficiente, sobretudo no grupo dos superusuários, que lidam diariamente com planilhas confidenciais, bases de clientes, códigos internos e documentos estratégicos. Políticas de classificação de informação aliadas a controles técnicos, como DLP adaptado ao contexto de IA, tornam-se essenciais.

Para o negócio, o desafio está em equilibrar inovação e proteção. Bloquear totalmente o uso de IA pode levar colaboradores a buscar caminhos alternativos, intensificando justamente a shadow AI. O caminho mais sustentável é criar ambientes corporativos de IA seguros, com ferramentas aprovadas, integrações oficiais e monitoramento adequado, dando às equipes meios eficientes de trabalho sem abrir mão da segurança. Ao mesmo tempo, é indispensável educar todos os níveis da organização sobre riscos específicos, desde ataques de injeção de prompt até armadilhas em extensões de navegador.

Outro ponto relevante é a necessidade de envolver áreas além de TI e segurança na definição da estratégia de IA. Jurídico, compliance, recursos humanos e líderes de negócios precisam participar da discussão sobre limites de uso, critérios de seleção de fornecedores de IA, requisitos contratuais sobre privacidade de dados e informações usadas em treinamento de modelos. Sem essa visão multidisciplinar, a empresa corre o risco de implementar soluções tecnicamente robustas, mas desalinhadas com exigências regulatórias ou com a própria cultura organizacional.

A tendência é que, nos próximos anos, o uso de IA se torne ainda mais distribuído e autônomo, com agentes tomando decisões em tempo real, integrados a cadeias de suprimentos, atendimento ao cliente, operações financeiras e segurança física. Esse movimento amplia a urgência de tratar a IA como parte integral da superfície de ataque. Empresas que saírem na frente na criação de uma arquitetura de segurança específica para IA – cobrindo contas pessoais, extensões, agentes autônomos e superusuários – terão vantagem competitiva não apenas em inovação, mas também em resiliência cibernética.

Em síntese, o relatório da Akamai expõe um paradoxo: a mesma tecnologia que promete ganhos de eficiência e insights sem precedentes está, ao ser utilizada sem governança adequada, abrindo portas para novas classes de ameaças. O ponto de virada para as organizações será reconhecer que segurança em IA não é mais um tema opcional, e sim um pilar obrigatório da estratégia digital corporativa.