Mentiras mais comuns contadas por cibercriminosos em ligações telefônicas – e como não cair
A conversa começa com um tom profissional, às vezes até cordial. Do outro lado da linha, alguém diz estar “apenas confirmando uma informação” ou “tentando evitar um prejuízo”. Em poucos minutos, a ligação vira um roteiro de pressão, urgência e medo. Golpes por telefone continuam entre as principais portas de entrada para fraudes no Brasil – e não têm nada de “brincadeira”, mesmo quando surgem disfarçados de histórias aparentemente simples.
Levantamentos baseados em classificações de usuários do Who Calls, aplicativo da Kaspersky voltado a identificar e bloquear chamadas indesejadas, mostram um padrão claro: as chamadas mais reportadas giram em torno de fraudes financeiras, mas também aparecem com frequência contatos que citam previdência social, planos de saúde, seguros, compras online, operadoras de telefonia e até as irritantes ligações silenciosas.
Entre as marcações mais comuns feitas por usuários, aparecem em destaque – e nessa ordem – os termos “fraude”, “golpe” e “spam”. Logo depois, vêm variações de golpes financeiros, como “fraude bancária”, “golpe financeiro” e “estelionato”. Na sequência, surgem ligações associadas a telecomunicações (muitas vezes usando o nome das principais operadoras) e também golpes que mencionam a previdência social, com palavras como “INSS” e “prova de vida”. Fechando a lista, aparecem temas ligados a compras e cobranças – como “golpe do cartão”, “cobrança indevida” e “compra falsa” – além de chamadas mudas, classificadas como “mudo” ou “não fala nada”.
O que torna esses golpes tão eficazes: engenharia social
Na maioria dos casos, o criminoso não precisa “invadir” nada. Ele usa engenharia social, uma técnica de manipulação que explora emoções e comportamento. Em vez de falhas tecnológicas, o alvo é a psicologia: confiança, medo, urgência, culpa e ansiedade. O golpista cria um cenário de emergência (“sua conta será bloqueada”), de oportunidade (“você foi selecionado para um benefício”) ou de risco iminente (“houve uma compra suspeita agora”). A intenção é reduzir o tempo de raciocínio da vítima e induzir decisões impulsivas – como passar dados, confirmar códigos ou fazer transferências.
As “mentiras” mais repetidas em ligações fraudulentas
A seguir, estão algumas narrativas típicas usadas por cibercriminosos ao telefone – e o que fazer quando elas aparecerem:
1) “Sou do seu banco e detectamos uma movimentação suspeita”
O golpista tenta parecer técnico e convincente, citando “tentativas de compra”, “acesso indevido” ou “risco de bloqueio”. Em seguida, pede confirmação de dados, códigos recebidos por SMS ou orienta uma “transferência de segurança”.
Como se proteger: desligue e procure o banco pelos canais oficiais. Banco não pede senha, token, código de SMS nem “transferência para conta segura”.
2) “Seu cartão foi clonado / vamos enviar um motoboy para recolher”
Um clássico: a pessoa afirma que o cartão foi comprometido e que alguém irá buscá-lo. Muitas vezes pedem para “cortar ao meio” (mas manter o chip) e entregar.
Como se proteger: nunca entregue cartão a terceiros. Se houver suspeita, bloqueie você mesmo pelos canais oficiais.
3) “É do INSS: precisamos confirmar a prova de vida/agendar sua regularização”
A fraude explora a preocupação com benefícios e bloqueios. Pode envolver pedido de dados pessoais, confirmação de documentos ou “taxas”.
Como se proteger: desconfie de ligações exigindo confirmação imediata. Evite fornecer CPF, dados bancários ou fotos de documentos por telefone.
4) “Você tem uma cobrança pendente e será negativado hoje”
O objetivo é gerar pânico e fazer a vítima pagar rapidamente um boleto/PIX, muitas vezes com história de “última chance”.
Como se proteger: não pague nada durante a ligação. Solicite informações, desligue e verifique a suposta dívida por canais legítimos.
5) “Sua linha será cancelada / seu chip foi trocado”
Aqui, a pressão é para obter códigos e dados que podem facilitar sequestro de contas (especialmente via troca de chip).
Como se proteger: operadora não deve solicitar senhas e códigos de autenticação por telefone. Proteja seu chip com senha e mantenha autenticação forte nas contas.
6) “Parabéns, você ganhou um benefício/upgrade/ressarcimento”
A promessa de vantagem rápida é uma isca poderosa. O “prêmio” costuma exigir “confirmação cadastral”, pagamento de “taxa” ou envio de dados.
Como se proteger: prêmio legítimo não exige pagamento antecipado nem urgência. Desconfie de ofertas fora do padrão.
Educação digital é o que fecha a porta do golpe
Bloquear chamadas indesejadas ajuda, mas não resolve sozinho. O ponto decisivo é a educação digital: reconhecer sinais de fraude, desconfiar de contatos inesperados e adotar hábitos seguros. Fabio Assolini, diretor da Equipe Global de Pesquisa e Análise da Kaspersky para a América Latina e Europa, reforça que a combinação entre atenção do usuário e tecnologia é essencial para reduzir o impacto desses golpes no cotidiano. Quando usuários classificam chamadas como seguras ou suspeitas, o sistema aprende e se torna mais preciso – o que melhora a proteção de todos.
—
Como se proteger na prática (passo a passo)
1) Desconfie de urgência e pressão
Golpistas apressam a decisão. Se alguém exige ação “agora”, faça o oposto: pare, respire, desligue e verifique.
2) Nunca compartilhe códigos de verificação
Códigos recebidos por SMS, autenticação em dois fatores e tokens são chaves de acesso. Se você passar, pode perder contas e dinheiro.
3) Não confirme dados pessoais com desconhecidos
Mesmo informações “inocentes” (nome completo, CPF parcial, data de nascimento) podem ser usadas para fraudes e validações.
4) Retorne o contato por um canal confiável
Se a ligação diz ser do banco, operadora, plano de saúde ou órgão público, desligue e procure você mesmo o atendimento oficial.
5) Use ferramentas de identificação e bloqueio de chamadas
Aplicativos e filtros ajudam a reduzir spam e chamadas suspeitas, especialmente quando se baseiam em inteligência coletiva e padrões de fraude.
6) Tenha uma “senha de segurança” familiar
Combine com familiares (principalmente idosos) uma palavra-chave para confirmar situações urgentes. Isso reduz golpes de “parente em apuros”.
7) Cuidado com ligações silenciosas
Chamadas mudas podem ser teste de linha ativa, tentativa de gravação de voz ou discagem automática. Não retorne e, se insistirem, bloqueie.
8) Proteja suas contas além do telefone
Ative autenticação em dois fatores, use senhas fortes e diferentes, e mantenha e-mail e aplicativos bancários com camadas extras de segurança.
9) Oriente quem é mais visado
Idosos e pessoas com pouca familiaridade digital são alvos frequentes. Uma conversa simples sobre “não resolver nada por telefone” evita prejuízos.
10) Se caiu no golpe, aja rápido
Bloqueie cartões, contate o banco, altere senhas e registre a ocorrência conforme necessário. Quanto mais cedo agir, maior a chance de reduzir danos.
Golpes telefônicos continuam evoluindo porque funcionam: eles exploram emoção, rotina corrida e confiança em “vozes de autoridade”. A melhor defesa é combinar ferramentas de bloqueio, verificação ativa por canais oficiais e uma regra de ouro: *nenhuma instituição séria precisa que você decida sob pressão durante uma ligação inesperada*.
