Ataques cibernéticos no Brasil disparam e superam em muito a média global
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O cenário de segurança digital no Brasil entrou em uma fase de alerta máximo. De acordo com o Relatório de Inteligência de Ameaças de abril de 2026, produzido pela Check Point Research (CPR), as organizações brasileiras sofreram, em média, 4.118 ataques cibernéticos por semana. Isso representa um aumento de 46% em comparação com o mesmo período de 2025 e coloca o país muito acima da média global, que fechou o mês em 2.201 ataques semanais por organização, com alta de 8% ano a ano.
Enquanto o mundo inteiro observa uma intensificação das atividades maliciosas, o Brasil se destaca negativamente como um dos alvos mais críticos do planeta. A combinação de forte digitalização, grande volume de dados e lacunas históricas em governança e proteção de sistemas torna o ambiente especialmente atraente para cibercriminosos.
Setores mais atacados no Brasil
A análise setorial mostra que os criminosos digitais escolhem com cuidado onde concentrar esforços. Em abril, três segmentos lideraram o ranking de ataques no país:
– Governo
– Serviços Empresariais
– Educação
O setor governamental permanece, pelo segundo mês consecutivo, como o alvo mais visado no Brasil, com indicadores acima das médias globais. Esse foco se explica pelo valor estratégico das informações manejadas por órgãos públicos, pela criticidade de serviços essenciais e, muitas vezes, por infraestruturas legadas e desatualizadas.
Já o segmento de Serviços Empresariais subiu duas posições no ranking nacional, tornando-se um dos principais alvos. Empresas de consultoria, contabilidade, advocacia, tecnologia, BPO e outros serviços que processam dados de terceiros acabam funcionando como “elos fracos” em longas cadeias de fornecimento, abrindo portas para ataques em efeito cascata.
A Educação, por sua vez, segue como um dos ambientes mais expostos, combinando grande quantidade de usuários, redes distribuídas, dispositivos pessoais e, na maioria das vezes, orçamentos restritos em segurança da informação.
América Latina: a região mais visada do mundo
O quadro brasileiro está inserido em um contexto regional ainda mais amplo. A América Latina aparece como a região mais atacada do planeta no período analisado. As organizações latino-americanas sofreram, em média, 3.364 ataques por semana, um crescimento de 20% em relação ao ano anterior – o maior aumento regional registrado.
Segundo os pesquisadores da CPR, o fenômeno está diretamente ligado a dois fatores:
1. Digitalização acelerada – empresas e governos correram para adotar serviços online, nuvem, meios de pagamento digitais e trabalho remoto;
2. Maturidade de segurança desigual – enquanto algumas organizações avançam em governança, outras ainda operam com estruturas frágeis, criando um mosaico de vulnerabilidades.
Esse desequilíbrio transforma a região em terreno fértil para campanhas massivas, exploração de vulnerabilidades conhecidas e ataques de oportunidade, muitas vezes conduzidos por grupos que reutilizam ferramentas e táticas já consolidadas em outros países.
Tendências globais: retomada forte da atividade criminosa
Após uma breve desaceleração em março, o mês de abril marcou uma retomada expressiva das ofensivas digitais em escala global. O volume de ataques cresceu 10% em relação ao mês anterior e 8% na comparação com abril de 2025. Todas as regiões monitoradas registraram aumento mês a mês, reforçando que não se trata de casos isolados, mas de um movimento amplo de intensificação da atividade criminosa.
De acordo com Omer Dembinsky, gerente de pesquisa de dados da Check Point Research, os agentes maliciosos continuam extremamente ativos e adaptáveis. Em vez de “diminuir o ritmo”, eles ajustam alvos, táticas e cronogramas, explorando janelas de oportunidade, falhas de atualização e novos vetores, como o uso inadequado de IA generativa.
Setores mais atingidos no mundo
No cenário global, o setor de Educação mantém a liderança como o mais atacado, com média de 4.946 tentativas de invasão por semana por organização, crescimento de 8% em relação ao ano anterior. O grande número de usuários, a multiplicidade de dispositivos e pontos de acesso e o uso intenso de plataformas colaborativas ampliam exponencialmente a superfície de ataque.
Na segunda posição aparece o Governo, com 2.797 ataques semanais por organização, ligeira queda de 1% ano a ano, mas ainda em patamar altíssimo. Em seguida vem o setor de Telecomunicações, com 2.728 ataques semanais, alta de 3% na comparação anual. Empresas desse segmento operam infraestruturas críticas e redes que sustentam praticamente toda a economia digital, o que as transforma em alvos estratégicos.
Setores ligados a Hotelaria, Turismo e Lazer também observaram elevação nos ataques, acompanhando o aquecimento das operações e o aumento de reservas e viagens. Em períodos de alta demanda, os criminosos exploram pressão operacional e menor atenção a protocolos de segurança para realizar golpes, fraudes e campanhas de phishing.
IA generativa: novo vetor de risco para dados sensíveis
Além do volume crescente de ataques tradicionais, o relatório traz um alerta adicional: o uso corporativo de ferramentas de IA generativa está abrindo uma frente silenciosa de exposição de dados.
Em abril, a CPR identificou que 1 em cada 28 prompts enviados em ambientes corporativos apresentava alto risco de vazamento de informações sensíveis. Esse tipo de uso de IA afetou 90% das organizações que utilizam essas ferramentas de forma regular. Além disso, cerca de 19% dos prompts continham dados potencialmente sensíveis, ainda que em nível mais moderado de risco.
Entre os tipos de informação frequentemente inseridos nessas ferramentas, destacam-se:
– Dados internos de projetos e estratégias;
– Informações sobre infraestrutura de TI, sistemas e configurações;
– Conteúdos contratuais ou jurídicos;
– Dados de clientes, fornecedores ou parceiros;
– Códigos-fonte e detalhes de aplicações internas.
O problema se agrava porque, em média, as empresas utilizaram dez ferramentas diferentes de IA generativa no período analisado, enquanto o usuário corporativo típico gerou 77 prompts por mês. Esse volume frequentemente supera a capacidade de governança, monitoramento e aplicação de políticas de segurança internas.
Por que a IA generativa aumenta a superfície de ataque
Ferramentas de IA generativa foram desenhadas para facilitar tarefas cotidianas – desde redação de textos até análise de dados e suporte a decisões. No entanto, muitos colaboradores não têm clareza sobre quais informações podem ou não ser compartilhadas com esses sistemas.
Sem diretrizes claras, é comum que funcionários copiem e colem trechos de documentos, bases de dados, códigos e informações de clientes para “otimizar” o trabalho. Se essas ferramentas não estiverem sob controle corporativo adequado, com contratos, políticas de privacidade e mecanismos de proteção, dados confidenciais podem ser armazenados, processados ou até reutilizados de forma que foge ao controle da organização.
Essa realidade cria um novo desafio para equipes de segurança: além de proteger redes, endpoints e aplicações, é preciso governar o uso da IA e garantir que ela não se transforme em um canal informal de vazamento de informações.
Ransomware continua em escalada
Entre todas as ameaças analisadas, o ransomware permanece como uma das mais disruptivas. Em abril de 2026, foram registrados 707 ataques de ransomware publicamente reportados, o que representa aumento de 5% em relação a março e 12% na comparação com abril de 2025.
O setor de Serviços Empresariais concentrou cerca de 33,8% desses incidentes, confirmando sua posição crítica dentro do ecossistema econômico. Empresas desse segmento costumam operar como prestadoras de serviços para diversos clientes e, portanto, acessam múltiplos ambientes, sistemas e dados sensíveis. Um único ataque bem-sucedido pode ter efeito dominó, impactando toda a cadeia de relacionamento.
Embora os ataques de ransomware tenham se sofisticado ao longo dos anos, a lógica central permanece a mesma: os invasores comprometem sistemas, criptografam dados, exfiltram informações e pressionam as vítimas com ameaças de vazamentos públicos e paralisação operacional, exigindo pagamento para restaurar acesso ou não divulgar os dados roubados.
Impactos para empresas brasileiras
O crescimento de 46% nos ataques semanais às organizações brasileiras não é apenas um dado estatístico: ele se traduz em riscos concretos ao negócio. Entre os principais impactos, destacam-se:
– Prejuízos financeiros diretos, com paralisação de operações, custos de resposta a incidentes, multas regulatórias e eventual pagamento de resgate em casos de ransomware;
– Danos à reputação, especialmente em incidentes com vazamento de dados de clientes, parceiros ou cidadãos;
– Perda de propriedade intelectual, incluindo projetos, códigos, fórmulas e estratégias de mercado;
– Riscos regulatórios e legais, sobretudo diante de legislações de proteção de dados e de continuidade de serviços essenciais.
No ambiente público, um ataque bem-sucedido pode comprometer serviços críticos para a população, como saúde, assistência social, arrecadação tributária e segurança, gerando impactos muito além da esfera tecnológica.
Como as organizações podem se proteger melhor
Diante de um cenário tão agressivo, tratar segurança cibernética como custo opcional é um erro estratégico. Entre as medidas prioritárias para reduzir riscos, estão:
1. Fortalecer a governança de segurança
– Definir políticas claras de uso de sistemas, dados e ferramentas de IA;
– Estabelecer responsabilidades entre áreas de negócio, TI, jurídico e compliance.
2. Adotar segurança baseada em prevenção e IA
– Utilizar soluções capazes de identificar e bloquear ameaças antes que causem impacto, com análise comportamental e detecção em tempo real;
– Integrar ferramentas de proteção de endpoint, rede, nuvem e e-mail.
3. Gerenciar o uso de IA generativa
– Implementar diretrizes claras sobre quais tipos de dados podem ser inseridos nesses sistemas;
– Preferir soluções de IA sob controle corporativo, com mecanismos de proteção, registro de uso e segregação de dados.
4. Reforçar a proteção contra ransomware
– Realizar backups frequentes, testados e isolados da rede de produção;
– Manter sistemas e aplicações atualizados, corrigindo vulnerabilidades conhecidas;
– Segmentar redes, limitando movimentação lateral de atacantes.
5. Treinar continuamente colaboradores
– Promover programas regulares de conscientização sobre phishing, engenharia social, senhas seguras e uso adequado de ferramentas digitais;
– Simular ataques e campanhas maliciosas para medir e aprimorar a resposta dos times.
O papel estratégico da alta gestão
Um ponto central para mudar esse cenário é o engajamento da alta liderança. Segurança cibernética deixou de ser um tema exclusivo da área de TI e passou a integrar o núcleo de decisões estratégicas. Diretores, conselheiros e gestores precisam:
– Enxergar o risco cibernético como risco de negócio;
– Garantir orçamento consistente e recorrente para segurança;
– Incluir métricas de cibersegurança nos indicadores de desempenho corporativo;
– Patrocinar projetos estruturais de modernização de infraestrutura, revisão de processos e capacitação de pessoas.
Sem esse apoio, as equipes técnicas tendem a operar de forma reativa, apagando incêndios, em vez de estruturar uma postura de segurança verdadeiramente preventiva.
Perspectivas para os próximos meses
Os dados de abril indicam que a queda temporária de ataques registrada em março foi um ponto fora da curva. A tendência é de manutenção – e possivelmente de intensificação – da atividade criminosa, impulsionada por:
– Acesso facilitado a ferramentas de ataque, kits de ransomware e serviços criminosos sob demanda;
– Popularização da IA generativa também entre atacantes, que a utilizam para criar phishing mais sofisticados, automatizar varredura de vulnerabilidades e agilizar desenvolvimento de malware;
– Crescente valor estratégico de dados e sistemas digitais para empresas e governos.
Para o Brasil e para a América Latina, o desafio é duplo: reduzir o “gap” de maturidade em relação a regiões mais avançadas e, ao mesmo tempo, responder a uma pressão de ataque maior do que a média global. Organizações que não incorporarem segurança desde o desenho de seus projetos de transformação digital tendem a acumular vulnerabilidades que serão exploradas cedo ou tarde.
Conclusão: risco contínuo exige proteção contínua
Os números revelam um cenário claro: o risco cibernético não é episódico, é permanente. Com ataques semanais muito acima da média global, crescimento acentuado de ransomware e expansão de riscos associados à IA generativa, o Brasil se encontra em um ponto decisivo.
A resposta passa por uma combinação de tecnologia avançada, políticas bem definidas, governança robusta e capacitação constante de pessoas. Em um ambiente em que os atacantes seguem altamente operacionais e adaptáveis, apenas organizações que tratam segurança digital como prioridade estratégica conseguirão reduzir exposição, evitar prejuízos milionários e preservar a confiança de clientes, cidadãos e parceiros de negócio.
