96% dos CIOs do setor financeiro ampliam o interesse por inteligência artificial
A inteligência artificial deixou de ocupar apenas o espaço de experimentação tecnológica e passou a integrar o planejamento estratégico das instituições financeiras. De acordo com o Logicalis CIO Report 2026, 96% dos diretores de tecnologia do setor demonstraram maior interesse por IA no último ano, evidenciando a importância da tecnologia para a modernização de bancos, seguradoras, fintechs e demais empresas de serviços financeiros.
O levantamento foi realizado pela Logicalis em parceria com a empresa independente de pesquisa Vanson Bourne, no fim de 2025. Foram entrevistados mil profissionais das áreas de negócios e tecnologia na Europa, Oriente Médio e África, Ásia-Pacífico e Américas. Entre os participantes, 100 atuavam no Brasil.
Entusiasmo convive com falta de planejamento
Embora a adoção avance rapidamente, ainda existem dúvidas sobre a capacidade das empresas de conduzir essa transformação de maneira estruturada. Mais da metade dos CIOs financeiros, ou 52%, afirma não confiar plenamente na existência de um roteiro consistente para orientar a evolução da IA nos próximos anos.
O mesmo percentual considera que a implementação está ocorrendo em ritmo acelerado demais. Além disso, 89% dos executivos reconhecem que suas organizações estão aprendendo enquanto colocam novas ferramentas em funcionamento. Esse cenário revela uma combinação de forte pressão por inovação, necessidade de resultados rápidos e ausência de modelos consolidados de governança.
Para Fabio Hashimoto, CTO da Logicalis Brasil, o papel dos líderes de tecnologia se tornou mais amplo. Eles precisam não apenas selecionar e implementar soluções, mas também estabelecer regras para que a inteligência artificial cresça com segurança, transparência e conexão com os objetivos corporativos.
Benefícios já aparecem nas operações
Mesmo diante das incertezas, a IA já produz resultados em áreas importantes. A melhoria na prestação de serviços é apontada por 55% dos entrevistados como um dos principais ganhos. A experiência do cliente aparece em seguida, mencionada por 51%, enquanto 47% destacam o uso da tecnologia em análises preditivas.
Na prática, essas aplicações podem contribuir para atendimento mais rápido, identificação de padrões de consumo, prevenção de perdas, avaliação de crédito, personalização de ofertas e antecipação de comportamentos de risco. A capacidade de processar grandes volumes de dados também permite que as instituições tomem decisões com maior agilidade.
O problema é transformar iniciativas pontuais em recursos corporativos permanentes. Cerca de 68% dos CIOs ainda não estão plenamente seguros de que conseguirão levar os projetos de IA além da fase de prova de conceito. Isso indica que testar uma ferramenta é relativamente simples, mas integrá-la aos sistemas, processos e indicadores da empresa é uma tarefa bem mais complexa.
Regulamentação e dados são os principais obstáculos
Os maiores desafios identificados pelos executivos estão ligados à maturidade organizacional. As preocupações com regulamentação e conformidade aparecem em 90% das respostas. Questões relacionadas à qualidade, disponibilidade e governança dos dados são citadas por 89%.
Também pesam a cultura interna, mencionada por 84% dos participantes, e a falta de profissionais qualificados, apontada por 82%. Esses fatores mostram que a expansão da IA não depende apenas da compra de plataformas. É necessário revisar processos, treinar equipes, definir responsabilidades e garantir que os dados utilizados sejam confiáveis e tratados de acordo com as exigências legais.
No setor financeiro, esse cuidado é ainda mais relevante. Decisões automatizadas podem afetar concessão de crédito, detecção de fraude, definição de preços e relacionamento com clientes. Por isso, modelos pouco transparentes ou alimentados por dados inadequados podem gerar prejuízos financeiros, riscos jurídicos e impactos reputacionais.
IA amplia a superfície de ataque
A expansão da inteligência artificial acontece paralelamente ao aumento das ameaças digitais. O estudo indica que 78% das organizações financeiras nas regiões analisadas sofreram incidentes cibernéticos no último ano. Para 27% dos CIOs, a própria IA já representa um risco significativo para o negócio.
Entre os problemas relatados estão a criação de novos pontos cegos de segurança, citada por 35% dos executivos, e o aumento do tempo necessário para responder a incidentes, mencionado por 40%. A dificuldade de acompanhar todas as ferramentas utilizadas internamente também é expressiva: 65% dos CIOs não têm plena confiança de que controlam completamente as soluções de IA em uso.
Outro dado relevante é que 66% consideram que os modelos atuais de governança não evoluem na mesma velocidade que a tecnologia. Para 67%, os treinamentos oferecidos aos colaboradores são insuficientes. Quase metade, 48%, entende que o uso inadequado de ferramentas de IA pelos próprios funcionários pode colocar dados corporativos em risco.
Uso sem controle pode expor informações sensíveis
A chamada IA sombra, formada por ferramentas adotadas sem autorização ou acompanhamento do departamento de tecnologia, tornou-se uma preocupação crescente. Funcionários podem inserir contratos, informações financeiras, dados de clientes ou documentos internos em plataformas externas sem compreender como essas informações serão armazenadas e processadas.
Para reduzir esse risco, as empresas precisam estabelecer políticas claras de uso, restringir o envio de dados sensíveis e oferecer alternativas corporativas aprovadas. A conscientização dos funcionários deve ser acompanhada por controles técnicos, como gestão de acessos, monitoramento de aplicações, criptografia e classificação da informação.
Também é importante registrar quais modelos estão em operação, quem pode utilizá-los, quais dados são processados e quais decisões dependem dos resultados gerados. Sem esse inventário, a organização perde visibilidade e encontra dificuldades para investigar falhas ou demonstrar conformidade.
IA agêntica será a próxima etapa
A inteligência artificial generativa já faz parte dos planos de muitas instituições. O próximo avanço tende a ocorrer com a IA agêntica, capaz de executar tarefas, coordenar etapas de um processo e tomar decisões com menor intervenção humana.
Segundo o levantamento, 59% das organizações financeiras pretendem investir nesse tipo de tecnologia nos próximos 12 meses. Os agentes poderão atuar em áreas como atendimento, análise de documentos, operações internas, suporte a equipes, monitoramento de transações e automação de rotinas administrativas.
Entretanto, quanto maior a autonomia, maior a necessidade de supervisão. Antes de permitir que um agente execute ações críticas, a instituição deve definir limites, autorizações, mecanismos de interrupção e critérios para revisão humana. Sistemas autônomos precisam operar dentro de regras verificáveis, com registros que permitam reconstruir cada decisão tomada.
Provedores especializados ganham espaço
A complexidade da transformação também explica por que 97% dos CIOs pretendem ampliar o uso de provedores de serviços gerenciados nos próximos anos. Os chamados MSPs podem ajudar na implantação, manutenção, segurança, monitoramento e atualização de ambientes de inteligência artificial.
A contratação de parceiros especializados permite suprir lacunas de conhecimento e acelerar projetos que exigiriam longos períodos de preparação interna. Ainda assim, terceirizar parte da operação não elimina a responsabilidade da instituição financeira. A empresa deve avaliar cuidadosamente os fornecedores, estabelecer indicadores de desempenho, definir níveis de serviço e manter controle sobre dados e decisões estratégicas.
Contratos precisam contemplar requisitos de segurança, continuidade operacional, localização das informações, resposta a incidentes e possibilidade de auditoria. Uma parceria mal estruturada pode transferir a operação, mas não transfere os riscos regulatórios e reputacionais.
Computação quântica entra no radar
Outra tecnologia que começa a influenciar o planejamento dos executivos é a computação quântica. Aproximadamente 28% dos entrevistados acreditam que ela poderá afetar seus modelos de negócio nos próximos dois anos.
Embora a aplicação comercial em larga escala ainda esteja em desenvolvimento, o tema já merece atenção por causa de seus possíveis efeitos sobre criptografia, otimização, simulações financeiras e análise de riscos. Instituições que dependem de proteção de longo prazo para informações sensíveis precisam acompanhar a evolução dos chamados algoritmos pós-quânticos.
Preparar-se não significa necessariamente realizar grandes investimentos imediatos. Um primeiro passo é identificar quais sistemas utilizam criptografia vulnerável, mapear dados que precisam permanecer protegidos por muitos anos e acompanhar planos de migração tecnológica.
Governança será decisiva para escalar
A pesquisa mostra que o interesse pela IA é praticamente unânime entre os CIOs financeiros, mas o entusiasmo não garante sucesso. A expansão sustentável depende de uma estrutura que combine inovação, segurança, conformidade e responsabilidade.
Entre as medidas prioritárias estão a criação de comitês multidisciplinares, a definição de políticas para desenvolvimento e uso de modelos, a avaliação periódica de riscos e a documentação dos processos automatizados. Também é fundamental estabelecer indicadores para medir precisão, eficiência, impacto financeiro, qualidade do atendimento e ocorrência de erros.
A adoção da IA no setor financeiro entra, portanto, em uma fase mais madura. O desafio já não é provar que a tecnologia funciona, mas incorporá-la à operação sem comprometer a confiança dos clientes, a proteção dos dados e a estabilidade dos negócios. As empresas que conseguirem equilibrar velocidade e controle terão melhores condições de transformar a inteligência artificial em vantagem competitiva duradoura.
